Informações gerais

Cadeira: 16
Posição: 1
Data de nascimento: 10 de outubro
Naturalidade: Belo Horizonte/MG
Patrono: Cecília Meireles
Data de posse: 01/09/2013
 

Biografia

Katia Auvray é mineira Belo Horizonte. Viveu no Rio de Janeiro, em Salvador/BA e em São Paulo.
É professora de História e lecionou em importantes escolas da capital paulista, como Pueri Domus, Elvira Brandão e Cristo Rei. Na década de 90, mudou-se para o interior onde atuou como docente nos colégios Objetivo, de Salto e de Indaiatuba, e Integral Guimarães Rosa, de Itu. Desenvolveu com seus alunos dezenas de projetos relacionados aos direitos humanos e à importância dos cidadãos comuns na construção do processo histórico. Entre eles encontram-se os livros “Um lugar chamado Brasil” e “Santa Terezinha”, sobre os bairros de mesmo nome, em Itu.
Há 15 anos, deu-se o seu encontro com o Jornalismo Investigativo. A partir daí, incorporou os recursos da comunicação de massa e os colocou a serviço da pesquisa social, da valorização da cultura popular e da socialização do conhecimento.
É autora do livro "Cidade dos Esquecidos - A vida dos hansenianos num antigo leprosário do Brasil" e da Coleção Magia da História que, em seus cinco volumes, apresenta a história de Salto ao público infantil.
Produziu centenas de artigos, crônicas e ensaios para sites e revistas. Atualmente é articulista do portal itu.com.

Bibliografia

“Cidade dos Esquecidos – a vida dos hansenianos num antigo leprosário do Brasil” (Ottoni, 2005).“O mapa encantado – introdução à história da fundação de Salto”, Coleção Magia da História v. 1 (Mirarte, 2012).

“O trem mágico - introdução à história da ferrovia em Salto”, Coleção Magia da História v. 2 (Mirarte, 2012).

“O fantástico mundo das chaminés - introdução à história da industrialização em Salto”, Coleção Magia da História v. 3 (Mirarte, 2012).

“O mistério da chave - introdução à história da presença italiana em Salto”, Coleção Magia da História v. 4 (Mirarte, 2012).

“O incrível quebra-cabeça - introdução à história da presença africana em Salto”, Coleção Magia da História v. 5 (Mirarte, 2012).

 

Discurso de posse

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Senhor presidente da Academia Saltense de Letras, professor Antonio Oirmes Ferrari, futuros confrades e confreiras, minha família, amigos e demais presentes.

É para mim uma honra e uma grande responsabilidade vir a integrar este sodalício, ocasião em que ocuparei a cadeira de número 16, cujo patrono é a escritora Cecília Meireles.

Neste dia tão especial, desejo compartilhar uma breve reflexão sobre a “Literatura, a Base Familiar e as Descobertas Pessoais”.

A relação com a literatura é uma questão multifacetada – de amor, deslumbramento, descobertas e, às vezes, de repugnância, tédio ou indiferença.

No meu caso, em especial, uma relação amorosa se iniciou quase no berço, dentro da estrutura familiar, quando meu pai criava histórias infantis para mim, ou me contava as clássicas, como “Branca de Neve e os Sete Anões”, “A Gata Borralheira” e todo um repertório que parecia não ter fim.

Após ter aprendido a ler, também foi ele quem me apresentou ao mundo mágico das fadas e bruxas, encontrado nos inesquecíveis contos irlandeses, finlandeses, ingleses e franceses.

Na pré-adolescência, chegou a vez das “Mil e Uma Noites” e da obra infantil completa de Monteiro Lobato, cujas coleções li e reli ao longo dos anos.

Embrenhei-me por variados tipos de leitura, partindo numa nova jornada – a das descobertas pessoais - que consistiram em mais do que decodificar palavras, saber dialogar com elas e transpor o conhecimento obtido para a minha própria vida.

Ao longo de cada leitura e de diferentes autores, foi possível viajar, conhecer diferentes épocas e personagens e aprender com a sua diversidade, a importância do respeito às diferenças culturais, sociais e econômicas. Foi possível, também, aprender sobre as causas e as consequências das ações humanas.

A leitura também foi determinante para a escolha da minha profissão: professora de História, atividade que exerci por 25 anos e que enveredou para as áreas da pesquisa e a escrita.

Num país em que a maioria da população pouco lê, é indispensável que o incentivo venha em primeiro lugar da base, da família.

Quando os pais leem para seus filhos, abrem-lhes as portas da imaginação e da criatividade, dando-lhes algumas das chaves da própria vida.

Tamanha herança recebida por mim gerou o desejo de escrever, que foi amplamente exercido ao longo de doze anos na revista temática histórica Campo&Cidade, sediada em Itu.

Também naquela cidade a necessidade de registrar a existência do antigo leprosário do Pirapitingui, hoje Hospital Francisco Ribeiro Arantes, tornou-se premente. Mais de mil almas, entre internos e moradores, não tinham a sua história registrada – nem quando foram sequestrados pelo Estado, menos ainda quando aquela estrutura começou a desmoronar, em 2003, o que me levou a escrever o livro-reportagem “Cidade dos Esquecidos”.

Os mais de vinte anos de vida em Salto me despertaram o desejo de contar para as crianças, um pouco da rica história dessa cidade, construída por tantas mãos, o que ocorreu com a coleção “Magia da História”.

Meu patrono nasceu em 7 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro, num tempo em que as mulheres ainda tinham seus direitos civis negados e, na grande maioria, pouca expressividade social. Ainda assim, Cecília Meireles formou-se professora e, aos 18 anos de idade, publicou “Espectro”, seu primeiro livro de poemas.

O amor pelas letras, a formação como professora e o interesse pela educação a levaram a fundar a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro, em 1934.

Entre suas muitas obras e fruto de longa pesquisa histórica, “Romanceiro da Inconfidência” é, para muitos estudiosos, a principal delas.

Por meio de uma hábil síntese entre o dramático, o épico e o lírico, Cecília delineou um retrato da sociedade de Minas Gerais do século XVIII, utilizando pela primeira vez a temática social, de interesse histórico e nacional.

A partir de profundas pesquisas históricas, enfatizou a luta pela liberdade, naquele que foi o primeiro grande movimento de emancipação do Brasil: a Inconfidência Mineira. Foi nessa medida que nos encontramos, Cecília e eu.

Um dos poemas ali constantes, “Os inconfidentes”, tornou-se amplamente conhecido, com a música criada por Chico Buarque.

“Toda vez que um justo grita/Um carrasco o vem calar

Quem não presta fica vivo/Quem é bom, mandam matar

Foi trabalhar para todos/E vede o que lhe acontece

Daqueles a quem servia/Já nenhum mais o conhece

Quando a desgraça é profunda/Que amigo se compadece?

Mas, por ele, quem trabalha?

Tombado fica seu corpo/Nessa esquisita batalha

Suas ações e seu nome/Por onde a glória os espalha?

Por aqui passava um homem/(E como o povo se ria!)

Que reformava este mundo/De cima da montaria

Ele na frente falava/E atrás a sorte corria

Liberdade ainda que tarde/Nos prometia/Tudo era como alegria”.

Minha identificação com Cecília Meireles atendeu a três princípios simples: sou mulher, professora e profundamente apaixonada pela literatura.

Agradeço minha escolha para esta vaga na Academia Saltense de Letras, que procurarei honrar, contribuindo com o necessário à valorização da língua portuguesa, da literatura, estimulando a leitura e os novos escritores.

Muito obrigada.